01 novembro 2018

O Conto de Hida Tenshin

Esse conto foi escrito em 2012 durante uma campanha de Lenda dos Cinco Anéis. A campanha, infelizmente, durou apenas algumas sessões e foi interrompida pouco tempo depois deste conto ser escrito. 

Boa leitura! 



        É noite na muralha Kaiu e uma brisa fria e cheia de maus presságios sopra os ombros dos homens e mulheres perfilados sobre suas ameias, sempre vigilantes, sempre atentos. Ombros que sustentam o peso de grandes armaduras e de um dever ainda mais esmagador: proteger aqueles que os desprezam do Inimigo Derradeiro. E sob o peso deste dever os olhos do Caranguejo vigiam as Terras Sombrias sem trégua ou descanso, e até aqueles que dormem aguardando seu turno sobre a Muralha estão, na verdade, de prontidão.
        Sob o peso do dever e da armadura, Hida Tenshin se perfila sobre a muralha ao lado dos seus companheiros. Ele acaba de retornar de uma guerra contra o clã da Garça e, cumprindo o seu turno na Muralha, tenta entender porque eles insistem em atacar os mesmos homens que os defendem. "Não queremos elogios ou prêmios, nem alianças ou favores. Bastaria que nos deixassem em paz para fazer aquilo que eles não querem". Contudo, Tenshin não os odeia. Sente apenas pesar. É verdade que ele é um bushi, e mesmo que tentasse jamais poderia ser qualquer outra coisa, mas matar outros homens é algo que não faz parte da sua natureza. "Muito se perde e pouco se ganha", pensa.
        De repente seus devaneios são interrompidos pela movimentação a sua volta. Centenas de samurai se perfilam e se movimentam recebendo e enviando informações atualizadas para seus superiores e para outros pontos da Muralha, através dos mensageiros Hiruma. Mas tudo continua parado. Opressivamente parado. As Terras Sombrias estão silenciosas há muito tempo, mas isso só deixa os homens do Caranguejo mais nervosos. Alguns preocupados com o que os Oni estão preparando, alguns, como Tenshin, apenas ansiosos por um pouco de ação. Ele está especialmente frustrado pois jamais teve uma oportunidade para enfrentar um Oni, nem mesmo um goblin, nem mesmo pisar nas terras além da Muralha. "Eu treinei toda a minha vida para enfrentar os monstros das Terras Sombrias, saí do Dojo quase com barba no rosto e acabei fazendo meu gempukku no meio das terras da Garça. As pessoas do meu clã acham que eu ainda tenho a casca mole demais. Humpf! Desprezado entre os desprezados. Não que eu ligue para isso, mas se eu não servir para lutar contra os monstros vou servir pra quê mais? Por pior e mais estranho que possa parecer seria bom ouvir um grito de..."
        "ATAQUE DAS TERRAS SOMBRIAS!!! PREPAREM-SE PARA LUTAR!!!" é o sinal de alerta que desperta Tenshin de mais um devaneio. Perdido em seus pensamentos demorou até perceber o motivo: vários destacamentos de goblins e ogros surgem à distância, permeando as reentrâncias do terreno montanhoso. Logo estarão à margem do rio Seigo, cobrindo o terreno até onde a vista puder alcançar como um enxame do inferno. Tenshin se pergunta porque nenhum Batedor Hiruma retornou para avisar de uma movimentação tão grande e imediatamente lhe ocorre um pensamento de horror. A resposta, claro, é óbvia.
        Uma intensa movimentação toma conta do lugar: os engenheiros Kaiu preparam as maquinas de guerra; os shugenja perfilam na retaguarda, preparando pergaminhos e feitiços para auxiliar na batalha que virá; os Gunso ordenam as tropas e despacham ordens; todos sabem o que fazer, todos conhecem a sua parte. E Tenshin não é exceção. Como muitos novatos e alguns veteranos ele aguarda ansioso. Os mais velhos por saber o que os aguarda. Os mais novos, por não saber...
        O ataque começa. Não em um momento específico, com um líder ordenando uma carga, mas como uma continuação da marcha macabra dos demônios em direção à Muralha. Eles não param, só avançam, sempre gritando maldições na sua língua medonha, com suas bocas cheias de dentes e mãos com garras que cortam as entranhas da alma. A massa disforme de monstruosidades atravessa o rio e se joga contra a muralha. Alguns trazem escadas de cerco, outros escalam com as próprias garras. Catapultas disparam contra a muralha, matando mais dos seus do que causando dano à estrutura. As máquinas Kaiu não tardam em revidar disparando grandes projéteis. Alguns envoltos em fogo, outros que explodem ao impacto. Lâminas saltam das paredes aqui e ali, cortando escadas, pernas, braços, cabeças. Mas a turba é numerosa e muitos alcançam o alto da muralha Kaiu.
        No ponto onde Tenshin está a postos uma escada de cerco apinhada de goblins encosta na borda da ameia. Imediatamente os goblins tentam saltar para dentro. O primeiro que tenta é enviado de volta para baixo com um golpe de Tenshin direto na cabeça. O segundo consegue subir e ficar com meio corpo acima do parapeito, atacando desajeitadamente. Tenshin se defende e desfere outro golpe de tetsubo, este nas costelas do goblin, enviando-o de volta para os seus. Um, que conseguiu subir enquanto Tenshin lutava, pula em suas costas. As garras se fixam nos braços e ombros abrindo grandes sulcos que rapidamente ficam vermelhos de sangue. O caranguejo tenta proteger o pescoço das garras do monstro. Com um giro rápido do tronco consegue derrubar o 'cavaleiro' no chão. O tetsubo desce. O estalo do crânio se partindo sela o destino de mais um goblin. Tenshin olha à volta para avaliar a batalha. As forças Sombrias são incansáveis mas as defesas da muralha e a coragem dos Caranguejo são inexpugnáveis. A cada minuto mais goblins, trolls e ogros jazem na base da muralha. Muitos defensores também perecem mas as linhas se mantém firmes.
        Tenshin continua se ocupando das escadas, tentando impedir que goblins consigam subir e tomar posições na muralha. À sua volta muitos samurai e ashigaru lutam pelo mesmo motivo. Alguns são puxados pelos goblins e caem no meio dos demônios ensandecidos. O som dos membros sendo arrancados e do corpo sendo estripado não pode ser ouvido, assim como os gritos, mas todos sabem o que aconteceu. Não há tempo para pesar pelos mortos, contudo, apenas para matar. O testubo de Tenshin continua girando e executando seu ofício. Ao seu lado uma mão humana surge, um samurai escala a muralha, subindo para a ameia. Ele usa uma armadura Hiruma com o mon da escola de batedores. Num primeiro momento Tenshin pensa em dar as boas vindas para o companheiro de clã, mas os olhos vidrados e o rasgo hediondo na garganta o fazem pensar melhor. "Ah! Aí está o batedor que deveria ter dado o aviso" - pensa com ironia enquanto acerta o braço do morto-vivo com grande potência, fazendo o úmero estalar duas vezes. O morto-vivo apenas ignora e cambaleia sobre o jovem caranguejo acertando um golpe sortudo. A lâmina talha entre as costelas e o sangue escorre por dentro da armadura. Tenshin cerra os dentes, lembrando que o treinamento fora bem mais doloroso, e gira o tetsubo mais uma vez. Desta vez a cabeça é acertada, fazendo o elmo voar. O crânio é esmigalhado em centenas de pedacinhos.
        Tenshin sente que o ferimento foi profundo e recua, seu lugar sendo rapidamente tomado por outros. Ele procura a torre mais próxima onde as reservas se preparam para tomar seu lugar na batalha e onde ficam os shugenja, lançando feitiços e curando os feridos. Antes de entrar na torre ele dá mais uma olhada para as ameias e vê a batalha em plena força. As baixas são imensas em ambos os lados.
        "Preciso voltar logo para a luta! Seja rápido!" diz para o shugenja que acaba de declarar que mais um soldado está além de qualquer salvação. O Kuni olha para Tenshin com uma expressão grave, se não fosse uma batalha contra as Terras Sombrias ele mesmo o jogaria do alto da muralha. Mas a situação exige todos os soldados disponíveis, então mesmo contrariado o shugenja começa a enfaixar o ferimento de Tenshin. Quando o Hida se prepara para voltar ao seu posto gritos de horror e estrondos são ouvidos, como se as montanhas estivessem caminhando sobre a terra. A torre treme. Os estrondos continuam.
        "A TORRE!!! ABAIXEM-SE!!!" gritam os hohei do lado de fora e de repente o alto da torre não está mais lá como se tivesse sido decapitada por uma gigantesca espada. Tenshin vê apenas uma espécie de tetsubo gigante passando de lado a lado na torre e levando tudo: paredes, teto, camas, homens... Por pouco ele consegue se abaixar e escapar, e vê uma monstruosidade gigantesca, do tamanho da torre, usando um versão negra e corrompida de uma armadura Hida. A cabeça é apenas um crânio com serpentes sibilando no lugar da língua e aranhas enormes passeando pelas órbitas. O Oni levanta o tetsubo gigante. Tenshin se joga na direção da escada, rolando para baixo no instante em que centenas de quilos de ferro negro se chocam contra os remanescentes de torre. Pedras e pó caem sobre ele, ferindo seus ossos, olhos e pulmões. Lutando para levantar ele desce os ultimos lances da escada e sai da torre em direção aos pátios atrás da muralha.
        Ao chegar no pátio, os olhos lacrimejando sangue por causa do pó de ferro e pedras, Tenshin vê o Rikugunshokan. "ACERTEM OS MALDITOS!!! DERRUBEM OS GIGANTES!!!" ordena. Os Kaiu  lutam contra o tempo e o cansaço, tentando atingir os demônios gigantes com as catapultas. Tenshin se vira e contempla uma cena de horror: varios Oni gigantes perfilados ao longo da muralha, golpeando a construção com imensas clavas de ferro. Dos seus ombros, trolls e ogros saltam com ferocidade para cima dos guerreiros perfilados. A cada golpe dos gigantes homens e pedras são arrancadas da muralha e arremessadas à grandes distâncias. A cada golpe o impensável torna-se realidade: A Muralha do Carpinteiro, a última proteção de toda Rokugan, está ruindo. Os bushi lutam com fervor mas nada pode ser feito. É só uma questão de tempo até uma brecha ser aberta na muralha e permitir a entrada livre das hordas de Fu Leng!
        Um ogro que ultrapassou a muralha avança contra as forças no pátio. Várias flechas são cravadas no seu corpo. Ele se aproxima de Tenshin, que desvia de um golpe mortal e gira o tetsubo num movimento ascendente. O queixo do ogro aloja-se violentamente na base do crânio. Um outro o ataca pelas costas acertando seu ombro direito com a perna de alguém, que foi arrancada para servir de arma. "Tenshin-san!", rosna o ogro. Tenshin é jogado de lado e rola pelo chão. "Não estou morto!? Meu braço não está quebrado!? Acho que tive sorte! Que hora ingrata pra ter sorte!"
        Finalmente uma grande brecha é aberta na muralha. O enxame de oni, goblins e outras monstruosidades invade as terras sagradas do Caranguejo. Os reservistas em formação, na qual Tenshin está, se chocam contra as forças invasoras, golpes são desferidos, sangue é derramado. A luta é feroz! No meio do combate Tenshin houve alguém se aproximar. Ele recua um pouco e vê o Rikugunshokan falando com um mensageiro, vindo do norte. "As tropas do norte foram atacadas por um exército de oni! Foram massacrados! Todos mortos! Os oni avançam para cá, logo estarão em posição para nos atacar!" diz o mensageiro. Um outro golpe atinge Tenshin, novamente no ombro direito. Ele cambaleia. "Tenshin-san!", vocifera o oni, que passa por ele para matar outro samurai.
        "Novamente? Um golpe daqueles deveria ter me feito em dois, mas ainda estou vivo! VIVO! Meus compatriotas estão morrendo como moscas! O caranguejo falhou em sua missão, toda Rokugan está condenada! E eu estou vivo!!!", desespera-se o jovem Tenshin face a horrível realidade. Um goblin se aproxima e crava a espada no estomago do samurai. "Tenshin-san!!!" diz ele. Tenshin responde arrancando a cabeça do goblin com seu tetsubo, com uma fúria que ele não sabia que tinha. A espada fica cravada no seu ventre. Tenshin a retira e constata que o ferimento se fecha, como se nunca houvesse existido. "Eles... eles sabem o meu nome! Estou marcado! É isso! Sou um maldito como eles!" Uma furia descontrolada toma conta dele. Em segundos sete oni estão caídos à sua volta. Eles não lutaram, não tentaram se defender. Então ele percebe que não há mais luta. Os monstros das Terras Sombrias apenas marcham para o norte e ao lado deles o clã caranguejo. Seus pais, primos, irmãos, amigos, companheiros... todos transformados em abominações sem mente. Eles não lutam com Tenshin, apenas passam através dele, o último homem vivo. Amaldiçoado a viver sozinho o inferno na terra. Sim, viver, pois Tenshin sabe que não está morto. Ele sente a marcha passar, esbarrando nele como se fosse apenas um obstáculo.
        E enquanto marcham, repetem tediosamente as mesmas palavras malditas:
        "Tenshin-san..."
        "Tenshin-san..."
        "Tenshin-san!"
        "TENSHIN-SAN!!!"

            ...

        -Tenshin-san! Tenshin-san!
        -AAAAAHHHH!!! - grita, Tenshin, agarrando o ashigaru pelo kimono com a mão esquerda. A mão direita cerrada num punho cheio de veias saltadas. O ashigaru arregala os olhos esperando pela dor excruciante que vai sentir quando o soco quebrar seu nariz. Tenshin não termina o golpe. Olha em volta e percebe que está em sua cama, ensopado de suor. As paredes da torre da muralha, à sua volta, estão firmes como a eternidade.
        -T...Tenshin-san... - sussurra o ashigaru, apavorado - Seu ... s...sensei p...pede a sua pr...pr...presença...
        -Desculpe. - diz Tenshin, largando o kimono do ashigaru ajoelhado ao seu lado. As mãos se abrem lentamente como uma dobradiça enferrujada, tamanha tensão impressa pelos músculos do jovem samurai.
        Seu sensei o encontra na própria muralha. Pede a ele que envie um presente a Bishamon Seido, nas terras do Leão. Ele se despede do antigo mestre e contempla a vastidão além da muralha. As visões do pesadelo, vívidas, na sua mente.
        Talvez não seja a hora de enfrentar você, maldita! Mas ela chegará!
          E quando chegar, Hida Tenshin vai estar pronto!

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