Engajar os jogadores, fazê-los participar de algumas horas de narrativa imaginária compartilhada, é uma daa coisas mais legais de ser Mestre. Embora o trabalho de Mestre normalmente seja visto como o mais trabalhoso e até chato eu posso falar se dúvida que, pra mim, é a posição que mais me satisfaz na mesa.
Conseguir esse tal engajamento é fundamental pra essa experiência e levando em conta que eu tenho tido boas experiências acho que eu tenho conseguido cumprir esse objetivo.
Não é a minha pretensão dar dicas de como Mestrar melhor. Esse é provavelmente o tipo mais comum de artigo sobre RPG que existe e Mestres muito melhores que eu já escreveram toneladas de textos excelentes sobre o assunto. Essa, então, é mais uma auto análise sobre como eu faço pra conseguir mais participação e engajamento dos meus jogadores...
Antes da aventura eu sempre tento bolar um enredo que tenha algum apelo e que faça os personagens se envolverem diretamente. Se necessário eu já começo a aventura com uma enrascada que eles precisam sair. Ou envolvo algum assunto familiar de um ou mais personagens. Se os jogadores são amigos eu tento explorar temas e situações que eles gostem.
Eu não sou tão bom no improviso, então eu deixo algumas possibilidades de ações, reações e consequências já preparadas de antemão e fica mais fácil criar algo novo e adaptar se preciso.
Algo que eu gosto de fazer ao preparar uma aventura é pensar: "se os personagens decidirem não fazer nada, haverá alguma consequência direta e pessoal para eles?" Se a resposta for "não" eu reescrevo o plot até que a resposta seja "sim". É importante que mundo tenha vida própria, independente dos jogadores, mas também é importante que os jogadores se sintam parte dele quando estiverem jogando e sofram os efeitos não só de tomar decisões, mas também de não tomá-las.
Eu também sempre dou uma boa olhada nas planilhas dos personagens e tento antecipar situações em que as suas forças e fraquezas podem aparecer. Essa também é uma dica antiga e útil: o que os jogadores escolhem na hora de fazer o personagem quase sempre é um reflexo do tipo de desafio ou situação ele quer encarar no jogo. Então eu tento preparar situações em que pelo menos uma habilidade de cada personagem tenha destaque. Nem sempre funciona, mas a tentativa continua.
Durante a sessão o que eu mais tenho feito, e parece ter dado certo, é deixar os jogadores falar e prestar atenção nas dicas sutis e, às vezes, inconscientes que eles dão. Ultimamente os melhores planos dos inimigos são sugeridos pelos próprios jogadores e mais de uma vez eu abandonei um plot que eu havia criado depois de horas de trabalho por uma ideia que surgiu das tentativas de um jogador de antecipar os planos do NPC inimigo.
Além disso, as falas dos jogadores seguem o mesmo princípio das escolhas de personagem: elas revelam aquilo que eles querem ver na aventura. Embora aqui eu nunca siga a sugestão ao pé da letra e às vezes até subverta a ideia, pra não ficar parecendo que os jogadores são videntes ou algo do tipo.
E finalmente, o meu toque pessoal, é deixar algum mistério no ar. Eu sempre tento deixar alguma pista de que as coisas que os personagens estão vendo podem não ser bem assim. Sempre tem uma ponta solta, um NPC meio suspeito, um plano óbvio escondendo outro não tão evidente, informações aparentemente contraditórias, distrações, coisas não concluídas e qualquer coisa que instigue a curiosidade dos jogadores.
Enfim, esses são os métodos que eu tenho utilizado. Sei que a maioria já é bastante batido, mas só depois de anos mestrando é que eu consegui usá-los de maneira consciente nos meus jogos. No fim vale a máxima: divirta-se e divirta os seus jogadores. Pessoas que se divertem são pessoas que se engajam e pessoas engajadas podem criar coisas incríveis.
03 agosto 2019
#RPGaDay2019 - Dia 2: Unique
Eu adoro artefatos! Usar objetos de imenso poder que os personagens devem encontrar para cumprir um objetivo, ou para não cair nas mãos erradas, é um clichê bastante recorrente, mas que não perde o seu charme. Arthur tem Excalibur, Senhor dos Anéis tem o Um Anel, Indiana Jones já achou a Arca da Aliança e o Graal e a lista continua.
Artefatos são, por sua natureza, itens únicos. Não existe outro igual e aquele que o possui também se torna, de alguma forma, alguém sem igual.
Mas como a palavra-tema de hoje do RPG a Day é Único eu pensei em um artefato que tenha como poder a própria definição de Único: "Sem outro igual; que é só no seu gênero, na sua espécie: filho único."
Vamos ver o que sai...
A Tiara do Usurpador de Rostos
Alaor Secundus Thraxter era, como o nome sugere, o segundo filho do mago Alaor Thraxter e também o segundo irmão de quadrigêmeos idênticos, todos chamados Alaor Thraxter, tendo como diferença apenas o nome do meio como indicação de sua ordem de nascimento no parto do qual sua mãe não sobrevivera.
As semelhanças entre os membros da família Thraxter não paravam aí. Ele e seus irmãos, chamados simplesmente de Primus, Tercius e Quatrius, também tinham uma semelhança inegável com seu pai, quase como se fossem versões mais jovens do mago. E, por imposição de Alaor, todos também estudavam para se tornarem magos como ele.
Uma única diferença, aparentemente, separava Secundus de seus irmãos gêmeos: ele era o único que achava torturante não ter uma identidade própria e ser apenas um de muitos. Muitas vezes ele tentou fugir da vigilância de seu pai e se aventurar em outros ramos de estudo, ou mesmo fazer pequenas mudanças estéticas. Essas atitudes, mesmo as mais inofensivas, eram punidas severamente por Alaor.
Após anos de tentativas frustradas de criar para si alguma identidade própria Secundus começou a afundar numa espiral de insanidade que não foi percebida pelos demais "Alaores". Para agrado de seu pai a rebeldia deu lugar a uma dedicação profunda pelo ofício da família. Secundus, no entanto, tinha seus próprios planos. Ele buscava uma maneira de obter, através da magia, aquilo que seu pai havia lhe negado: o direito de não ser uma mera cópia dos demais membros da família Thraxter.
Após muitos anos de pesquisa, pactos profanos e experimentos ele conseguiu encantar uma gema que foi engastada numa tiara de prata e adamantina. Ao colocar a tiara, no entanto ele sentiu pouca diferença, pelo menos não até se aproximar de seu irmão Tercius.
Ao entrar no campo de visão de Secundus, Tercius imediatamente foi acometido de dores terríveis. Seu rosto começou uma transformação horrenda em que ele perdia rapidamente suas feições, como se seu rosto e pele regredisse para um tipo de rascunho de carne. Instintivamente Tercius tentou conjurar uma magia para se defender e descobriu que seus poderes se foram. Horrorizado, Secundus viu seu irmão morrer na sua frente, reduzido a um boneco de carne sem feições ou identidade.
Ele tirou a tiara, mas não havia mais tempo para salvar Tercius. Alaor apareceu para ver o que havia acontecido e em sua fúria pela morte de Tercius revelou o que Secundus e seus irmãos realmente eram: uma variação da criatura alquímica conhecida como homúnculo, criados para que Alaor usasse como um corpo sobressalente caso morresse. Mais do que uma maneira de voltar à vida, Alaor tencionava unir os quatro gêmeos em um "receptáculo superior" somando os poderes mágicos dos quatro aos seus próprios.
Ao saber disso a descida na espiral de insanidade se completou para Secundus. Ele recolocou a tiara, desta vez fundindo-a à sua própria carne. E o destino de Tercius se repetiu com Alaor e os outros irmãos.
Com os poderes da tiara e seus próprios conhecimentos de magia Secundus criou um reino de terror que perdurou por anos. As lendas dizem que seu exército era composto de homens que tiverem seus rostos roubados e qualquer um que ousasse enfrentá-lo de repente se via desprovido de suas habilidades mais valiosas.
01 agosto 2019
#RPGaDay2019 - Dia 1: First!
Começou o RPG a Day 2019, o primeiro desde que eu comecei este blog. E como eu estou a 9 meses sem postar nada (um parto!), essa é uma ótima oportunidade de tirar a poeira dos Salões.
Este ano a proposta do RPG a Day é produzir alguma coisa usando uma palavra chave daquele dia como base. E a primeira palavra é "First", primeiro(a) em português.
Embora o esperado seja falar sobre a primeira vez que eu joguei RPG (foi GURPS, e como Mestre!) eu preferi contar algo anterior...
Foi lá pela 5ª ou 6ª série do ensino fundamental, ao pegar o ônibus para voltar para casa um colega de classe senta no banco ao meu lado, pega um caderno e começa a folhear. Como se tratava de alguém com quem eu tinha uma certa proximidade dei uma bisbilhotada no conteúdo do caderno.
Eu não tenho uma memória precisa do que havia ali, mas me lembro claramente de que era uma série de nomes de criaturas e elementos fantásticos, seguidos de uma breve descrição de algumas linhas, tudo escrito a lápis. Me lembro claramente de ter visto que uma das descrições se referia a um Minotauro e também haviam gemas mágicas...
Até aquele momento a palavra "gema" , pra mim, era só o nome que se dá ao amarelo do ovo...
Perguntei o que era aquilo tudo e ele apenas me respondeu: "É um jogo". Como assim um jogo? Assim como a "gema", jogo era um termo com um significado que não incluía nada parecido com o conteúdo daquele caderno. Na minha cabeça jogos poderiam ser de três tipos: esportes ou competições, jogos de tabuleiro como jogo de vida ou banco imobiliário ou videogames. É nenhum desses incluía a necessidade de anotar em um caderno a descrição de uma criatura mitologica.
Ele emendou uma explicação sobre o tal jogo dizendo que era uma história em que heróis e monstros, incluindo, acredito eu, o tal Minotauro, buscavam por gemas mágicas.
Antes que ele pudesse dar mais detalhes o ônibus chegou ao destino. Eu esqueci daquela conversa, mas alguma coisa ficou enterrada no meu inconsciente porque anos depois, ao escolher um presente de aniversário, me deparei com uma caixa do saudoso Hero Quest. Assim que a vi a memória daquele caderno escrito a lápis veio como um tapa na cara! Seria esse tal jogo misterioso?
Não era (não há Minotauros em Hero Quest), mas graças a ele, e a uma Dragão Brasil falando sobre o jogo, que eu vim a conhecer o RPG.
Até hoje eu não sei se aquele tal jogo do caderno era um RPG, mas tudo indica que sim, ou pelo menos algo muito próximo. Não lembro o nome nem o rosto do dono do caderno, mas considero esse o meu primeiro contato com esse hobby que se tornou uma paixão pessoal e a origem de grandes amizades.
01 novembro 2018
O Conto de Hida Tenshin
Esse conto foi escrito em 2012 durante uma campanha de Lenda dos Cinco Anéis. A campanha, infelizmente, durou apenas algumas sessões e foi interrompida pouco tempo depois deste conto ser escrito.
Boa leitura!
É noite na muralha Kaiu e uma brisa fria e cheia de maus presságios sopra os ombros dos homens e mulheres perfilados sobre suas ameias, sempre vigilantes, sempre atentos. Ombros que sustentam o peso de grandes armaduras e de um dever ainda mais esmagador: proteger aqueles que os desprezam do Inimigo Derradeiro. E sob o peso deste dever os olhos do Caranguejo vigiam as Terras Sombrias sem trégua ou descanso, e até aqueles que dormem aguardando seu turno sobre a Muralha estão, na verdade, de prontidão.
Sob o peso do dever e da armadura, Hida Tenshin se perfila sobre a muralha ao lado dos seus companheiros. Ele acaba de retornar de uma guerra contra o clã da Garça e, cumprindo o seu turno na Muralha, tenta entender porque eles insistem em atacar os mesmos homens que os defendem. "Não queremos elogios ou prêmios, nem alianças ou favores. Bastaria que nos deixassem em paz para fazer aquilo que eles não querem". Contudo, Tenshin não os odeia. Sente apenas pesar. É verdade que ele é um bushi, e mesmo que tentasse jamais poderia ser qualquer outra coisa, mas matar outros homens é algo que não faz parte da sua natureza. "Muito se perde e pouco se ganha", pensa.
De repente seus devaneios são interrompidos pela movimentação a sua volta. Centenas de samurai se perfilam e se movimentam recebendo e enviando informações atualizadas para seus superiores e para outros pontos da Muralha, através dos mensageiros Hiruma. Mas tudo continua parado. Opressivamente parado. As Terras Sombrias estão silenciosas há muito tempo, mas isso só deixa os homens do Caranguejo mais nervosos. Alguns preocupados com o que os Oni estão preparando, alguns, como Tenshin, apenas ansiosos por um pouco de ação. Ele está especialmente frustrado pois jamais teve uma oportunidade para enfrentar um Oni, nem mesmo um goblin, nem mesmo pisar nas terras além da Muralha. "Eu treinei toda a minha vida para enfrentar os monstros das Terras Sombrias, saí do Dojo quase com barba no rosto e acabei fazendo meu gempukku no meio das terras da Garça. As pessoas do meu clã acham que eu ainda tenho a casca mole demais. Humpf! Desprezado entre os desprezados. Não que eu ligue para isso, mas se eu não servir para lutar contra os monstros vou servir pra quê mais? Por pior e mais estranho que possa parecer seria bom ouvir um grito de..."
"ATAQUE DAS TERRAS SOMBRIAS!!! PREPAREM-SE PARA LUTAR!!!" é o sinal de alerta que desperta Tenshin de mais um devaneio. Perdido em seus pensamentos demorou até perceber o motivo: vários destacamentos de goblins e ogros surgem à distância, permeando as reentrâncias do terreno montanhoso. Logo estarão à margem do rio Seigo, cobrindo o terreno até onde a vista puder alcançar como um enxame do inferno. Tenshin se pergunta porque nenhum Batedor Hiruma retornou para avisar de uma movimentação tão grande e imediatamente lhe ocorre um pensamento de horror. A resposta, claro, é óbvia.
Uma intensa movimentação toma conta do lugar: os engenheiros Kaiu preparam as maquinas de guerra; os shugenja perfilam na retaguarda, preparando pergaminhos e feitiços para auxiliar na batalha que virá; os Gunso ordenam as tropas e despacham ordens; todos sabem o que fazer, todos conhecem a sua parte. E Tenshin não é exceção. Como muitos novatos e alguns veteranos ele aguarda ansioso. Os mais velhos por saber o que os aguarda. Os mais novos, por não saber...
O ataque começa. Não em um momento específico, com um líder ordenando uma carga, mas como uma continuação da marcha macabra dos demônios em direção à Muralha. Eles não param, só avançam, sempre gritando maldições na sua língua medonha, com suas bocas cheias de dentes e mãos com garras que cortam as entranhas da alma. A massa disforme de monstruosidades atravessa o rio e se joga contra a muralha. Alguns trazem escadas de cerco, outros escalam com as próprias garras. Catapultas disparam contra a muralha, matando mais dos seus do que causando dano à estrutura. As máquinas Kaiu não tardam em revidar disparando grandes projéteis. Alguns envoltos em fogo, outros que explodem ao impacto. Lâminas saltam das paredes aqui e ali, cortando escadas, pernas, braços, cabeças. Mas a turba é numerosa e muitos alcançam o alto da muralha Kaiu.
No ponto onde Tenshin está a postos uma escada de cerco apinhada de goblins encosta na borda da ameia. Imediatamente os goblins tentam saltar para dentro. O primeiro que tenta é enviado de volta para baixo com um golpe de Tenshin direto na cabeça. O segundo consegue subir e ficar com meio corpo acima do parapeito, atacando desajeitadamente. Tenshin se defende e desfere outro golpe de tetsubo, este nas costelas do goblin, enviando-o de volta para os seus. Um, que conseguiu subir enquanto Tenshin lutava, pula em suas costas. As garras se fixam nos braços e ombros abrindo grandes sulcos que rapidamente ficam vermelhos de sangue. O caranguejo tenta proteger o pescoço das garras do monstro. Com um giro rápido do tronco consegue derrubar o 'cavaleiro' no chão. O tetsubo desce. O estalo do crânio se partindo sela o destino de mais um goblin. Tenshin olha à volta para avaliar a batalha. As forças Sombrias são incansáveis mas as defesas da muralha e a coragem dos Caranguejo são inexpugnáveis. A cada minuto mais goblins, trolls e ogros jazem na base da muralha. Muitos defensores também perecem mas as linhas se mantém firmes.
Tenshin continua se ocupando das escadas, tentando impedir que goblins consigam subir e tomar posições na muralha. À sua volta muitos samurai e ashigaru lutam pelo mesmo motivo. Alguns são puxados pelos goblins e caem no meio dos demônios ensandecidos. O som dos membros sendo arrancados e do corpo sendo estripado não pode ser ouvido, assim como os gritos, mas todos sabem o que aconteceu. Não há tempo para pesar pelos mortos, contudo, apenas para matar. O testubo de Tenshin continua girando e executando seu ofício. Ao seu lado uma mão humana surge, um samurai escala a muralha, subindo para a ameia. Ele usa uma armadura Hiruma com o mon da escola de batedores. Num primeiro momento Tenshin pensa em dar as boas vindas para o companheiro de clã, mas os olhos vidrados e o rasgo hediondo na garganta o fazem pensar melhor. "Ah! Aí está o batedor que deveria ter dado o aviso" - pensa com ironia enquanto acerta o braço do morto-vivo com grande potência, fazendo o úmero estalar duas vezes. O morto-vivo apenas ignora e cambaleia sobre o jovem caranguejo acertando um golpe sortudo. A lâmina talha entre as costelas e o sangue escorre por dentro da armadura. Tenshin cerra os dentes, lembrando que o treinamento fora bem mais doloroso, e gira o tetsubo mais uma vez. Desta vez a cabeça é acertada, fazendo o elmo voar. O crânio é esmigalhado em centenas de pedacinhos.
Tenshin sente que o ferimento foi profundo e recua, seu lugar sendo rapidamente tomado por outros. Ele procura a torre mais próxima onde as reservas se preparam para tomar seu lugar na batalha e onde ficam os shugenja, lançando feitiços e curando os feridos. Antes de entrar na torre ele dá mais uma olhada para as ameias e vê a batalha em plena força. As baixas são imensas em ambos os lados.
"Preciso voltar logo para a luta! Seja rápido!" diz para o shugenja que acaba de declarar que mais um soldado está além de qualquer salvação. O Kuni olha para Tenshin com uma expressão grave, se não fosse uma batalha contra as Terras Sombrias ele mesmo o jogaria do alto da muralha. Mas a situação exige todos os soldados disponíveis, então mesmo contrariado o shugenja começa a enfaixar o ferimento de Tenshin. Quando o Hida se prepara para voltar ao seu posto gritos de horror e estrondos são ouvidos, como se as montanhas estivessem caminhando sobre a terra. A torre treme. Os estrondos continuam.
"A TORRE!!! ABAIXEM-SE!!!" gritam os hohei do lado de fora e de repente o alto da torre não está mais lá como se tivesse sido decapitada por uma gigantesca espada. Tenshin vê apenas uma espécie de tetsubo gigante passando de lado a lado na torre e levando tudo: paredes, teto, camas, homens... Por pouco ele consegue se abaixar e escapar, e vê uma monstruosidade gigantesca, do tamanho da torre, usando um versão negra e corrompida de uma armadura Hida. A cabeça é apenas um crânio com serpentes sibilando no lugar da língua e aranhas enormes passeando pelas órbitas. O Oni levanta o tetsubo gigante. Tenshin se joga na direção da escada, rolando para baixo no instante em que centenas de quilos de ferro negro se chocam contra os remanescentes de torre. Pedras e pó caem sobre ele, ferindo seus ossos, olhos e pulmões. Lutando para levantar ele desce os ultimos lances da escada e sai da torre em direção aos pátios atrás da muralha.
Ao chegar no pátio, os olhos lacrimejando sangue por causa do pó de ferro e pedras, Tenshin vê o Rikugunshokan. "ACERTEM OS MALDITOS!!! DERRUBEM OS GIGANTES!!!" ordena. Os Kaiu lutam contra o tempo e o cansaço, tentando atingir os demônios gigantes com as catapultas. Tenshin se vira e contempla uma cena de horror: varios Oni gigantes perfilados ao longo da muralha, golpeando a construção com imensas clavas de ferro. Dos seus ombros, trolls e ogros saltam com ferocidade para cima dos guerreiros perfilados. A cada golpe dos gigantes homens e pedras são arrancadas da muralha e arremessadas à grandes distâncias. A cada golpe o impensável torna-se realidade: A Muralha do Carpinteiro, a última proteção de toda Rokugan, está ruindo. Os bushi lutam com fervor mas nada pode ser feito. É só uma questão de tempo até uma brecha ser aberta na muralha e permitir a entrada livre das hordas de Fu Leng!
Um ogro que ultrapassou a muralha avança contra as forças no pátio. Várias flechas são cravadas no seu corpo. Ele se aproxima de Tenshin, que desvia de um golpe mortal e gira o tetsubo num movimento ascendente. O queixo do ogro aloja-se violentamente na base do crânio. Um outro o ataca pelas costas acertando seu ombro direito com a perna de alguém, que foi arrancada para servir de arma. "Tenshin-san!", rosna o ogro. Tenshin é jogado de lado e rola pelo chão. "Não estou morto!? Meu braço não está quebrado!? Acho que tive sorte! Que hora ingrata pra ter sorte!"
Finalmente uma grande brecha é aberta na muralha. O enxame de oni, goblins e outras monstruosidades invade as terras sagradas do Caranguejo. Os reservistas em formação, na qual Tenshin está, se chocam contra as forças invasoras, golpes são desferidos, sangue é derramado. A luta é feroz! No meio do combate Tenshin houve alguém se aproximar. Ele recua um pouco e vê o Rikugunshokan falando com um mensageiro, vindo do norte. "As tropas do norte foram atacadas por um exército de oni! Foram massacrados! Todos mortos! Os oni avançam para cá, logo estarão em posição para nos atacar!" diz o mensageiro. Um outro golpe atinge Tenshin, novamente no ombro direito. Ele cambaleia. "Tenshin-san!", vocifera o oni, que passa por ele para matar outro samurai.
"Novamente? Um golpe daqueles deveria ter me feito em dois, mas ainda estou vivo! VIVO! Meus compatriotas estão morrendo como moscas! O caranguejo falhou em sua missão, toda Rokugan está condenada! E eu estou vivo!!!", desespera-se o jovem Tenshin face a horrível realidade. Um goblin se aproxima e crava a espada no estomago do samurai. "Tenshin-san!!!" diz ele. Tenshin responde arrancando a cabeça do goblin com seu tetsubo, com uma fúria que ele não sabia que tinha. A espada fica cravada no seu ventre. Tenshin a retira e constata que o ferimento se fecha, como se nunca houvesse existido. "Eles... eles sabem o meu nome! Estou marcado! É isso! Sou um maldito como eles!" Uma furia descontrolada toma conta dele. Em segundos sete oni estão caídos à sua volta. Eles não lutaram, não tentaram se defender. Então ele percebe que não há mais luta. Os monstros das Terras Sombrias apenas marcham para o norte e ao lado deles o clã caranguejo. Seus pais, primos, irmãos, amigos, companheiros... todos transformados em abominações sem mente. Eles não lutam com Tenshin, apenas passam através dele, o último homem vivo. Amaldiçoado a viver sozinho o inferno na terra. Sim, viver, pois Tenshin sabe que não está morto. Ele sente a marcha passar, esbarrando nele como se fosse apenas um obstáculo.
E enquanto marcham, repetem tediosamente as mesmas palavras malditas:
"Tenshin-san..."
"Tenshin-san..."
"Tenshin-san!"
"TENSHIN-SAN!!!"
...
-Tenshin-san! Tenshin-san!
-AAAAAHHHH!!! - grita, Tenshin, agarrando o ashigaru pelo kimono com a mão esquerda. A mão direita cerrada num punho cheio de veias saltadas. O ashigaru arregala os olhos esperando pela dor excruciante que vai sentir quando o soco quebrar seu nariz. Tenshin não termina o golpe. Olha em volta e percebe que está em sua cama, ensopado de suor. As paredes da torre da muralha, à sua volta, estão firmes como a eternidade.
-T...Tenshin-san... - sussurra o ashigaru, apavorado - Seu ... s...sensei p...pede a sua pr...pr...presença...
-Desculpe. - diz Tenshin, largando o kimono do ashigaru ajoelhado ao seu lado. As mãos se abrem lentamente como uma dobradiça enferrujada, tamanha tensão impressa pelos músculos do jovem samurai.
Seu sensei o encontra na própria muralha. Pede a ele que envie um presente a Bishamon Seido, nas terras do Leão. Ele se despede do antigo mestre e contempla a vastidão além da muralha. As visões do pesadelo, vívidas, na sua mente.
Talvez não seja a hora de enfrentar você, maldita! Mas ela chegará!
E quando chegar, Hida Tenshin vai estar pronto!
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