19 agosto 2019

#RPGaDay2019 - Dia 19: Scary

Aventuras de terror/horror são um desafio para mim, como mestre. Esse é um gênero em que eu tenho pouca experiência, tanto como mestre quanto como jogador e eventualmente terei que encarar  uma aventura nesse gênero, até porque os jogadores do meu grupo atual me pediram...

Como jogador eu tive algumas experiências em aventuras de horror, algumas inclusive em sistemas não focados nesse gênero, graças à competência do mestre da ocasião. Mas uma que eu me lembro bem foi uma mesa de Shadow of the Demon Lord, num World RPG Fest, acho que em 2016.

O grupo estava chegando a uma cidade fortificada depois de uma missão, apenas para encontrá-la coberta em sombras e completamente vazia. O meu personagem era um guerreiro que levava junto um bebê: um filho que ele descobrira ter quando a mãe o deixou órfão. Um tipo sombrio de Lobo Solitário. Além dele ainda havia um clérigo, um tipo de construto metálico, um conjurador goblin e um ladrão.

Ao caminhar pela cidade nós descobrimos que ela estava completamente vazia, exceto por algumas pessoas deixadas na rua, empaladas ou crucificadas, e monstros que apareciam sem aviso. Como a origem do que quer que fosse que havia acometido a cidade era o castelo do regente local o grupo decidiu ir para lá. No caminho um dos monstros acabou matando o bebê que meu personagem carregava...

Chegando ao castelo encontramos a esposa do regente com as mãos descarnadas e presa num tipo de ilusão insana, quase morremos para atravessar um campo guardado por um corvo colossal feito de sombras e perdemos o construto que foi sugado por um poço de água negras até encontrar um portal que se abria para o inferno.

Além do portal, caminhando por entre demônios gigantescos que nos ignoravam, e subindo escadas feitas de pele e ossos, encontramos uma sala onde o regente estava guardando um livro. Pelas palavras balbuciantes dele descobrimos que ele abrira o portal numa tentativa de ressuscitar o filho falecido. Os demônios não só tomaram todas as vidas da cidade como pagamento, como corromperam o desejo do regente, ressuscitando o seu filho na forma de um demônio.

O conjurador, ao ver o livro profano, cometeu o erro de folhear suas páginas e rapidamente foi corrompido. O clérigo, num surto de loucura e ganância matou o ladrão e se engalfinhou com o mago pela posse do tomo. Meu personagem, que eu interpretava como alguém minimamente honrado, virou as costas e os deixou para trás, ciente que eles estavam irremediavelmente loucos, voltou pelo portal, fez uma pequena pira funerária improvisada para o seu filho e saiu em campo aberto com a espada em punho, com a certeza que não tinha chance nenhuma contra a ave sombria...

Eu nunca esqueço uma frase do GURPS Horror, quando ele ensina a como aterrorizar os jogadores, e não só os personagens, que os dois elementos cruciais do gênero são a incerteza e o isolamento. E eu tive esses dois elementos em abundância nessa aventura. Mas depois de algum tempo a incerteza deu lugar à melancolia e à desesperança. Em determinado momento da aventura eu não me importava mais se o meu personagem ia morrer ou não: a incerteza não me incomodava mais. Ou melhor, não havia incerteza.

Tentando definir uma diferença entre medo e horror eu cheguei a uma definição que eu costumo usar, e que é totalmente pessoal. O medo é filho da dúvida, ele surge pela expectativa de não saber o que esperar e de uma promessa, que pode se cumprir ou não, de algo desagradável. Por isso as pessoas tem medo do escuro: você não sabe o que está lá e nem quando ela vai pular sobre você, se é que tem alguma coisa.

Já o horror, ao contrário, é filho da certeza. É a realização de que algo terrível está consumado e não há nada a se fazer. É o fim de qualquer esperança e de qualquer redenção. Ninguém tem horror a algo desconhecido. Quando alguém diz que algo é horrível isso é uma constatação definitiva da natureza desagradável desse algo.

Por isso os contos de Lovecraft, por exemplo, são de horror: eles retratam, normalmente, as memórias de alguém que já passou por provações terríveis, viu coisas inomináveis e não tem nenhuma sombra de dúvida ou incerteza de que o mundo é um lugar terrível e sem esperança para a humanidade. E acho que foi esse o progresso desta aventura, ela começou como uma aventura de terror, mas foi se tornando uma aventura de horror. Pelo menos pro meu personagem.

Vamos ver se essa reflexão me ajuda a montar um boa aventura de terror (ou horror) pro meu grupo de jogo...

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